22 de novembro de 2015

postheadericon O polo têxtil, com 18 mil confecções e quase 300 lavanderias, também depende diretamente da água para a produção.

“E novembro entrou, mais seco e mais miserável.” A seca cruel que a escritora Rachel de Queiroz narra em O Quinze aconteceu há exatos cem anos. Mas apesar de todas as mudanças pelas quais o semi-árido brasileiro passou no último século, moradores do Sertão e do Agreste pernambucanos enfrentam, em 2015, o mais severo desabastecimento de água para consumo humano, criação de gado e irrigação agrícola dos últimos cinco anos. Um problema que afeta não só as gestões públicas nessas cidades, que já sofrem com a baixa na arrecadação, mas põe em risco toda uma cadeia produtiva do Estado.A promessa de uma estiagem ainda mais severa em 2016 faz prefeitos se mobilizarem e preocupa o governador Paulo Câmara (PSB), que estuda meios de levar água da Zona da Mata para a região. Hoje, 126 cidades do Estado estão em situação de emergência por causa da estiagem. O Monitor das Secas, da Agência Nacional de Águas, mostra uma “seca excepcional” em mais da metade do Estado. Pelas previsões da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), o fenômeno El Niño deve comprometer as chuvas no Agreste e no Sertão pelo menos até abril.

“Aqui, em Águas Belas, todas as nascentes e barragens secaram. A partir da próxima semana, vamos ser abastecidos por carros-pipa”, lamenta o prefeito Genivaldo Menezes (PT), que percorreu 105 quilômetros na última semana em uma marcha que pede a viabilização da Adutora do Agreste. Segundo a Compesa, 17 cidades estão em completo colapso e dependem de caminhões-pipa.

Para o presidente do Sindicato dos Produtores de Leite, Saulo Malta, a situação da bacia leiteira é “periclitante” porque até os poços artesianos estão secando. Em 2011, último ano sem seca, Pernambuco produzia mais de 2,5 milhões de litros de leite por dia. Hoje, os 82 mil produtores têm no máximo 1,5 milhão de litros diários.

O polo têxtil, com 18 mil confecções e quase 300 lavanderias, também depende diretamente da água para a produção. A barragem de Jucazinho, que atendia as principais cidades da região, está no volume morto, com 2,3% da capacidade. “Faltando água, a confecção vai ter que pegar o seu produto, enviar para outras regiões do Brasil para fazer o beneficiamento e depois trazer de volta. É calamitante”, diz Edilson Tavares, presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções.

No Sertão, a barragem de Sobradinho pode ficar sem vazão antes da instalação de bombas flutuantes para captar água no Rio São Francisco. “É o caos. As empresas podem demitir todo mundo porque as plantas vão morrer. Não tem plano B”, conta Sérgio Lima, diretor da Fazenda Timbaúba, um dos maiores produtores de uva do São Francisco.

Do NE 10 

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