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11 de setembro de 2018

Bolsonaro mantém liderança da corrida com 24% após ataque, diz Datafolha

A eleição presidencial de 2018 vem se mostrando como uma das mais atípicas da história recente brasileira. Não apenas pelo que prometia antes mesmo de começar, mas por fatos novos e inesperados. O início oficial da campanha ocorreu em 16 de agosto. A partir dali os candidatos começaram a pedir votos. O início da propaganda de rádio e TV foi em 31 de agosto. É comum o meio político dizer que, na verdade, é ali que começa de fato a corrida eleitoral. Mas só agora, na primeira quinzena de setembro, a menos de um mês da votação do primeiro turno, marcada para 7 de outubro, é que o quadro geral parece ganhar um contorno mais definido para a avaliação do eleitorado - salvo novas surpresas. O resultado da mais recente pesquisa Datafolha, divulgada na noite de segunda-feira (10), é um termômetro do cenário em formação. O último passo para que este cenário esteja completo é a troca do candidato do PT. Barrado pela Lei da Ficha Limpa, Luiz Inácio Lula da Silva deve ser substituído oficialmente pelo vice Fernando Haddad nesta terça-feira (11). A VARIAÇÃO NO DATAFOLHA   Os números acima se referem a dois levantamentos do instituto Datafolha. O primeiro teve entrevistas em 20 e 21 de agosto. O segundo teve entrevistas na segunda-feira (10). As duas pesquisas têm margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Isso quer dizer que há um empate técnico na segunda colocação entre Ciro Gomes, do PDT, Marina Silva, da Rede, Geraldo Alckmin, do PSDB, e Haddad, do PT. No intervalo entre uma e outra pesquisa, houve ao menos três fatos marcantes: começou o horário de rádio e TV (31 de agosto), a candidatura de Lula foi barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (1º de setembro) e Jair Bolsonaro, do PSL, sofreu um atentado (6 de setembro). EM QUEM NÃO VOTARIAM   A soma dos índices de rejeição supera os 100% porque os entrevistados podem apontar mais de um candidato no qual declaram não ter intenção de votar de jeito nenhum. Os dados de rejeição podem ter influência num eventual segundo turno. Nos cenários analisados, Bolsonaro perde para Ciro, Marina e Alckmin e fica empatado tecnicamente com Haddad. O Datafolha ouviu 2.804 pessoas em 197 cidades do Brasil. O desenho da eleição NOVAS REGRAS E LULA PRESO A campanha presidencial de 2018 começou sob novas regras. Ficou mais curta e as doações de empresas aos candidatos estão proibidas. Líder nas pesquisas, Lula teve a candidatura lançada mesmo da cadeia, onde cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro imposta pela Operação Lava Jato. TSE BARRA LULA Lula foi barrado pelo TSE, por se enquadrar na Lei da Ficha Limpa. O TSE rejeitou uma manifestação do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, para quem o ex-presidente deveria disputar a eleição. A corte brasileira ainda impôs uma data para o PT trocar de candidato: 11 de setembro. ALCKMIN CONTRA BOLSONARO Dono do maior tempo de TV, Alckmin apostou na desconstrução de Bolsonaro. Atrás nas pesquisas, o tucano usou o palanque eletrônico na busca pelo eleitorado antipetista concentrado no capitão da reserva, que por sua vez lidera a corrida presidencial no cenário sem Lula. TEMER CONTRA ALCKMIN Enquanto criticava Bolsonaro, Alckmin buscava se distanciar do impopular Michel Temer. O presidente, porém, não gostou. E divulgou vídeos nos quais associava o governo ao PSDB, parceiro no impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e aliado na eleição dos partidos que sustentam Temer. ATENTADO A BOLSONARO Bolsonaro estava num ato de campanha em Juiz de Fora quando levou uma facada. O capitão da reserva ficou em estado grave e não deve mais participar de eventos públicos até a votação. O atentado gerou comoção. Ele está internado em São Paulo. O LANÇAMENTO DE HADDAD A defesa de Lula pede a suspensão da proibição da candidatura ao Supremo. Obteve até uma nova manifestação favorável do comitê da ONU. Mesmo assim, o PT prepara o lançamento de Haddad. Salvo nova reviravolta judicial, isso deve ocorrer nesta terça (11), prazo dado pelo TSE. Duas análises sobre os rumos das eleições Diante do resultado do Datafolha e do cenário que se desenha, o Nexo ouviu dois cientistas políticos a fim de projetar o que pode acontecer agora nesta que é uma das eleições presidenciais mais incertas da história recente do Brasil. São eles: Rogério Baptistini, professor de ciência política da Unesp Leonardo Avritzer, professor de ciência política da UFMG O atentado a Bolsonaro vai mudar o rumo da eleição? ROGÉRIO BAPTISTINI O atentado contra Bolsonaro aumentou o clima emocional, servindo para blindar o candidato das críticas que vinha sofrendo. Entretanto, é pouco provável que esse clima emocional diminua sua rejeição. O público de Bolsonaro permanece estável, como as pesquisas mostraram. É mais provável que esse atentado sirva apenas para diminuir o ímpeto dos ataques a Bolsonaro, o que é um problema sobretudo do centro político, que está sendo disputado por Alckmin e Marina. LEONARDO AVRITZER A pesquisa mostra que o atentado mudou pouco o rumo da eleição. Era de se esperar um crescimento muito maior, afinal de contas ele teve uma superexposição de mídia ao longo do fim de semana, e a variação dele para 24% não parece, de fato, significativa. Tudo indica que Bolsonaro continua tendo viabilidade para se colocar no segundo turno da eleição, mesmo porque [essa condição] está muito ligada ao pouco crescimento de Alckmin. Alckmin tem potencial de ocupar o espaço antipetista? ROGÉRIO BAPTISTINI O potencial de crescimento de Alckmin tem se mostrado bastante restrito. A crítica ao antipetismo tem pouca possibilidade de garantir um crescimento para o candidato tucano. Alckmin aparece como candidato muito ligado a temas de difícil aceitação, numa eleição que está muito emocionalizada. Talvez falte a Alckmin aquele toque de carisma necessário para momentos iguais ao que estamos vivenciando. Ou seja, falta a Alckmin se apresentar como um homem capaz de empolgar as massas e de ser mais arrojado em relação às proposições. O antilulismo não reclama um candidato morno como Alckmin. O antilulismo reclama um candidato carismático como Bolsonaro. LEONARDO AVRITZER Evidentemente, a candidatura de Alckmin ainda tem algum fôlego para crescer, até porque isso também está ligado a Bolsonaro. Se Bolsonaro tivesse tido um crescimento muito maior, Alckmin já não teria mais tanto potencial para subir nas pesquisas. Mas, ainda assim, os cinco minutos de TV de Alckmin [por programa] no horário eleitoral não parece ter feito muita diferença. Eu não sei se a questão é Alckmin ocupar um lugar no antipetismo ou se o problema é que, na medida em que a conjuntura se dividiu entre petismo e antipetismo, o tucano deixou de ser o candidato ideal para ocupar esse espaço. Na medida em que o problema já não é disputar um projeto político, mas atacar o próprio petismo, ou o lulismo, tudo indica que Bolsonaro tem mais condições de desempenhar esse papel. Ao substituir Lula, Haddad terá potencial de crescer neste pouco tempo? ROGÉRIO BAPTISTINI É pouco provável a transferência de votos de Lula para Haddad. O pouco tempo até o dia das eleições prejudica essa transferência. Também prejudica essa transferência o pouco espaço que as mídias oferecem para a campanha petista. Dado o clima emocionalizado da campanha, não se pode contar com o crescimento automático baseado no “ele disse”, como foi a eleição de [Eurico Gaspar] Dutra em 1946, a partir do apoio de Getúlio [Vargas]. O momento é muito ruim para o PT. A estratégia petista parece que não vai surtir efeito. Há pouco menos de 30 dias para as eleições, sem espaço de mídia e em um clima emocionalizado e sobretudo centrado na figura de Bolsonaro. Nada garante o crescimento de Haddad. LEONARDO AVRITZER A pesquisa mostra que Haddad tem potencial de crescimento nesse pouco tempo que resta de campanha. Evidentemente que o potencial dele para crescer está diretamente ligado à capacidade de Lula de transferir votos para ele. De alguma maneira, as pesquisas dizem que uma parte dos eleitores do Lula já está disposta a fazê-lo. Não está muito claro, pelos resultados das pesquisas, o desgaste político vivido hoje pelo PT. Afinal de contas, o candidato com o maior índice de rejeição é Bolsonaro. O desgaste do PT é relativizado em relação ao índice de rejeição de Bolsonaro e à capacidade de Alckmin de crescer. Ciro, ou mesmo Marina, podem ocupar o espaço pós-Lula? ROGÉRIO BAPTISTINI Quem está sabendo utilizar bem o vácuo deixado por Lula/Haddad/PT, ou seja, pela oposição à esquerda em relação a Bolsonaro, parece ser Ciro, e não Marina. A candidata da Rede está embolada no centro político, atendendo muito os imperativos do público de Alckmin e do público que busca um candidato mais carismático. Mas Marina padece dos mesmos problemas de Alckmin, além de sua situação ser agravada pelo fato de não ter exposição [no programa eleitoral] e estrutura partidária tão sólida como Alckmin. Ciro, ao contrário, tem o carisma necessário para ser um antiBolsonaro. Nesses pouco mais de 20 dias que antecedem as eleições, se Ciro não cometer os erros que cometeu em eleições passadas, ele tem um potencial de crescimento e pode polarizar com Bolsonaro. Mas em um cenário tão incerto como o brasileiro, muita coisa pode acontecer em um curto espaço de tempo.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/09/11/A-pesquisa-Datafolha.-E-o-novo-quadro-da-elei%C3%A7%C3%A3o-presidencial

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